Avião ou carro? Perguntou a namorada ansiosa olhando hotéis na internet. Afinal, eram as primeiras férias dos dois juntos. Mais especificamente, eram as primeiras férias que ele tirava em sua vida. Fred, como os amigos chamavam o famoso Frederico, amava tanto trabalhar, que em determinadas épocas da sua juventude, pensou em casar com o trabalho. Casava com o trabalho e tudo resolvido, a lua de mel seria na empresa e, sem dúvida, as bodas de prata viriam com uma promoção. Mas desistiu, ou pelo menos achou que havia desistido, dessa idéia duas semanas depois que conheceu Janaynna. Mesmo após ela ter escrito o seu primeiro bilhete de amor, que ostentava uma y e duas letras n juntinhas em seu singelo nome. Mas quem era Frederico para falar de nomes? O dele, herança de um avô italiano, de quem não herdou o passaporte, apenas o nome, tinha muita personalidade, mas não era nenhuma idéia brilhante.
Praia ou montanha? Interrogou a doce Janaynna. Frederico, ainda muito distante, pensando no trabalho, é claro, deixou a menina sem uma resposta. Olhava para o vazio, parecia que tinha sido traído. Janaynna, que tinha MBA em Frederico, e como qualquer pessoa que tem MBA não entendia de nada, continuou o interrogatório pelas férias, sem perceber que a única coisa que Frederico queria, era voltar ao trabalho. Para Frederico, a relação que ele tinha com Janaynna era praticamente trair o seu casamento com o trabalho. E Frederico, apesar da fama de garanhão, sempre foi muito fiel. Por isso o olhar distante, o olhar vazio. Por isso que a vida dele não fazia sentido fora do escritório. Mas uma relação dessa forma com o trabalho seria inaceitável. Afinal, trabalho é substantivo masculino, e Frederico era espada, rapá.
Camping ou hotel? Disse mais uma vez Janaynna, dessa vez meio impaciente, já percebendo que algo estava errado. Fred, retrucou com um suave “o que você preferir, meu bem”. Neste momento, nesta fração de segundo, Frederico percebeu que o amor que tinha pelo trabalho era platônico. Inatingível. Não por questões de sexualidade, muito menos porque o amor poderia não ser correspondido (afinal, uma promoção seria melhor do que um carinho). Mas porque, com Janaynna, ele poderia estar durante o ano todo e para o resto da sua vida. Já com o trabalho, ele teria que tirar os seus trinta dias de férias e, um dia, como quem é trocado por alguém mais novo, teria que se aposentar, abandonando o seu amor pra sempre. Foi aí que Frederico se decidiu por Janaynna. E ela perguntou: “Dinheiro ou cartão?”, Frederico não demorou a responder: “Férias”, mas ficou na dúvida se falava do trabalho ou de Janaynna.